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papel passado |
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| domingo, 13 de novembro de 2005 |
Outra cidadezinha qualquer
Janelas abertas a cactos
Olhares esquiando serrotes
Cantar amor sem pomar
Passa um cão
Passa um silêncio
Passa um segundo
Fácil precisar a distância
Entre o remoto e o estagnado
Eta vida besta, Drumond!
camilo - camilo
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< 14:20:28> comentários[14].
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| quarta-feira, 2 de novembro de 2005 |
OBTUÁRIO
essa rua sem cadeiras nas calçadas
essa gente-paisagem aquarelizada
nada além dessas
todos os órgãos doados
tombamento psicológico
esgotamento de quimeras
que fazer dessas torres
que nenhum fundamentalista
pretende aterrorizar?
como um 11 de setembro
ao contrário
minha rua atrevessou
uma cruz
em meus ombros
camilo - camilo
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< 13:54:08> comentários[8].
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| quarta-feira, 12 de outubro de 2005 |
SINAIS
olha as mãos
há apenas uma palavra
já sem pele
o que diriam
amigos antigos
sobre esse gesto
agora contumaz
de silenciar?
o que diriam
falsos amigos
sobre esse incesto
o significante comendo
o significado
do verbo calar?
nas mãos arde
uma última palavra
já sem olhos.
camilo - camilo
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< 14:56:00> comentários[7].
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| sábado, 24 de setembro de 2005 |
lado deserto de dentro
quando brota um silêncio
na flâmula do olhar
a periferia do pensamento
rasga o limite
do lado deserto de dentro
é precioso omitir
que o semáforo do sentimento
libera a passagem
das segundas intenções
(há que haver um feitiço
um ilusionismo contido
uma razão ilegível
na caverna do olhar
onde indecisões adormecidas
saltam de uma pupila à outra)
camilo - camilo
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< 17:24:39> comentários[7].
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| sábado, 17 de setembro de 2005 |
tambaú
não sou de mar
infinitudes perpendiculares
horizontalidades profundas
me assustam
dentro de mim,
fixo, rijo, ressecado
o sertão
mas agora, o mar...
como não arrastar
seus exageros móveis
na retina nocauteada?
camilo - camilo
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< 15:49:22> comentários[8].
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| domingo, 28 de agosto de 2005 |
O cheiro da rua
Minha rua tinha cheiro de vaga-lume em catingueira debaixo de chuva; terra revolvida exalando odores juninos. Uma pétala que ficasse fora de si facilmente se amoldaria à suavidade das essências que fluíam daqueles varais.
Quando serenava no meio da manhã, minha rua espirrava sândalo, desnorteando passarinho. Viravam oferendas as fumaças de fogões de lenha ativadas sob alguidares de canjica e pamonha.
Em meio à tarde de céu inquieto, com o sol bolinando nuvens, minha rua exalava aroma de iguarias improvisadas: manga partida com a mesma faca com que se descascara batata-doce.
A minha era uma rua que vinha de perto, nunca ousou esticamentos, preguiçosa que ficou de tanto embriagar-se no perfume de terra seca. Certa vez, um cachorro endoidou cheirando o ar, patchuli derramado de não se sabe onde.
Quando a vó faleceu, minha rua banhou-se de alfazema, na solidão dos desconfortados que inalam a bruma da lágrima dos pais. O odor dos hortelãs vinha de ruas vizinhas e se misturava aos manjericões deflorados. Ali, sob o abrigo das algarobeiras e sua aspersão de neblinas cotidianas, embriagavam-se canários desprevenidos.
Mas minha rua não era dada a depressões. Vapores de peixe assando antecipava reconfortos... Meninas na janela envolviam a rua num gosto de bogari; almíscar exalado de quintais delicadamente varridos.
Reencontrando a rotina, minha rua tinha cheiro de rosa se espreguiçando à fragrância de coisas espiritualizadas, entre resíduos de amizades aconchegantes.
Minha rua, involuntariamente, surtava famintos, com seu cheiro de ponche de tamarindo. Transeuntes sobreviventes de catástrofes sazonais ajoelhavam-se ante o sabor de água purificada em potes de barro, tão doce de se beber riachos.
Quando eclodia uma guerra nas manhãs de minha rua, o cheiro bélico de melão caetano intensificava o alarido dos grilos.
O cheiro da minha rua é o cheiro da vida mesmo. Vai passando sem passar... como o aroma de goiaba, nos tachos de fazer cocada de Mariinha, Belinha e Generina.
Minha rua é sempre reprisada em vale a pena ver de novo. É o relógio que, no alforje da memória, retira da sincronia seu olor de passatempo, definindo aquilo que, para sempre, será presente.
camilo - camilo
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< 12:44:49> comentários[7].
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| sábado, 27 de agosto de 2005 |
escravo
a poesia faz de mim
o que bem quer
ainda ontem me atirou
contra a parede
e se riu
da rima pobre
e do pé-quebrado
do meu verso angustiado
camilo - camilo
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< 14:22:59> comentários[9].
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| sábado, 20 de agosto de 2005 |
pelo visto
sabem a mim
olhos virgens
(m)olhando ausências
desnecessárias
sabem a nós
olhos narcíseos
atirando espelhos
contra abismos
olhos assim
(m)olhos de sins
abrolhos de nãos...
só eu sei
quão pouco são
sãos
camilo - camilo
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< 17:03:47> comentários[20].
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| sábado, 13 de agosto de 2005 |
premonição
já os ventos de agosto
antes da hora
enunciam em uivos
os bruscos ritos
os naufrágios iminentes
aragem de espavento
dizendo a que veio
bafeja de véspera
gases de desgostos
há tornados danosos
vendavais, hecatombes
tufões azougados
antecipados a gosto
cerrem ferrolhos
reforcem travas
recolham velas
distribuam lanternas
Agosto Tempestade da Silva taí.
camilo - camilo
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< 16:04:23> comentários[10].
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| sábado, 6 de agosto de 2005 |
dá licença poética?
quando nasci
anjo gauche
veio conferir
origem e destino
a mãe poliu
o pai decretou:
vai ser alado
queira ou não queira
(fardo pesado
pra quem não é desdobrável)
eu?
iniciei um chororô
que só teve fim
quando o anjo
amputou
minhas asinhas de fora
por camilo rosa
um náufrago
nenhuma angra
regenera a íris
açoitada
por tempestades...
nenhuma vela
estanca o fluxo
no sangradouro
das meias-verdades...
perto do porto,
dedos afagam
o dissabor
afogado nas vagas
da memória.
por camilo rosa
camilo - camilo
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< 15:10:12> comentários[13].
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| quinta-feira, 14 de julho de 2005 |
análise do discurso
considerem ágrafo
o discurso do amor
não adentrem entrelinhas
não enxerguem negritos
não captem senhas
dos implícitos abrasivos
deixar-se incompreender
impenetrabilizar-se
eis a única forma de plenitude
para a textualidade (ab)surda
do amor
a página nua
a branca oferenda
o jazigo do signo
tudo mudo
se fazendo haver
no indizível
(como o amor).
camilo - camilo
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< 10:05:48> comentários[18].
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| sábado, 9 de julho de 2005 |
desnecessário
nenhuma lista me contempla
sou do sumidouro das referências
jamais vale a pena dizer o meu nome
no máximo, me insiro nos etc.
nunca sou a solução indicada
para preencher lacunas
e, nas múltiplas escolhas,
estou no nenhuma das respostas
se não fosse eu,
nada seria diferente.
camilo - camilo
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< 15:30:24> comentários[8].
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| sábado, 2 de julho de 2005 |
pessoas
esse que agora vês
não sou eu
é o outro
que se finge-me
minto,
não há fingimento,
esse outro sou eu
sou outro eu
um eu-outro meu
ah, desculpe
misturei tudo
vou começar de novo
sem dissimulação
esse que agora não vês
sou eu.
camilo - camilo
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< 15:24:35> comentários[9].
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| sábado, 25 de junho de 2005 |
olhar portátil
com que lâmina
o olhar recorta
o cetim do desejo?
(olhos receosos
temperam pesadelos
na estação do sono)
(olhos buliçosos
dissecam angústias
sobre o toldo do esquecimento)
(olhos sagazes
ignoram culpas
no delito ensaiado)
cortando veias do desejo
com a gilete do pecado
há sempre um olhar
que se flagra acetinado
por camilo rosa
camilo - camilo
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< 16:37:45> comentários[11].
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| domingo, 19 de junho de 2005 |
ímã
gosto é de coisas obtusas
anzóis graviolas velocípedes
sinuosos
oblíquos
retorcidos
toda substância que se forma
da deformação de retas
acalanta meu olhar
camilo - camilo
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< 12:28:19> comentários[10].
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